KPop Demon Hunters: quando a vergonha tenta roubar-nos a voz

Uma reflexão sobre vergonha, identidade e a coragem de recuperar a própria voz sem esconder quem somos.

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KPop Demon Hunters: quando a vergonha tenta roubar-nos a voz

Uma análise emocional sobre vergonha, identidade, ansiedade, confiança e a coragem de aceitar todos os pedaços de nós.

⚠ Aviso de spoilers: este artigo contém spoilers de KPop Demon Hunters.

Quando comecei a ver KPop Demon Hunters, esperava encontrar um filme divertido, cheio de música, cor e batalhas. Como sempre ouvi K-pop, tive curiosidade em descobrir como esse universo seria transformado numa história de animação.

O que não esperava era gostar tanto.

Nunca imaginei que fosse tão espetacular. Surpreendeu-me pela música, pelo humor, pelas personagens e pelo mundo visual que criou, mas principalmente pela mensagem emocional escondida por baixo de toda aquela energia.

Porque, no fundo, KPop Demon Hunters não é apenas uma história sobre três artistas que combatem demónios. É uma história sobre vergonha, identidade, confiança e o medo de que toda a gente se afaste quando descobrir quem realmente somos.

E é através de Rumi que esse medo ganha voz.

Rumi e a parte de si que aprendeu a esconder

Rumi parece ter tudo aquilo que se espera de uma líder: é talentosa, determinada, corajosa e capaz de continuar mesmo quando está a sofrer.

Foi precisamente essa força que fez com que se tornasse uma das minhas personagens preferidas. Vejo nela alguém lutadora, resiliente e muito verdadeira — mesmo que demore algum tempo até conseguir mostrar essa verdade aos outros.

Rumi é metade humana e metade demónio. As marcas que se espalham pelo seu corpo revelam uma parte de si que manteve escondida durante toda a vida. Para ela, aquelas marcas não representam apenas um segredo. Representam tudo aquilo que acredita poder fazê-la perder as pessoas que ama.

Senti que Rumi tinha a certeza de que, se mostrasse quem realmente era, toda a gente se afastaria.

Por isso, não procura apenas derrotar os demónios. Procura eliminar a parte de si que aprendeu a considerar errada. Acredita que só poderá viver em paz quando as marcas desaparecerem e ninguém precisar de descobrir a verdade.

Mas quanto mais tenta esconder essa parte, mais ela cresce.

E quanto maior se torna a vergonha, mais Rumi perde a voz.

A voz é aquilo que lhe permite cantar, liderar o grupo, proteger os fãs e construir a Honmoon. É o seu talento, a sua identidade e uma das principais fontes do seu propósito. Por isso, não é por acaso que a vergonha começa por atacar precisamente aquilo que mais a define.

O filme transforma uma dor emocional em algo visível: quando passamos demasiado tempo a rejeitar uma parte de nós, podemos acabar por perder espaço para existir por inteiro.

Quando fingir que está tudo bem também nos silencia

Eu não tenho marcas demoníacas a espalharem-se pelo corpo, mas reconheci a sensação de tentar esconder algo para não parecer diferente.

A ansiedade, por exemplo.

Por vezes, é difícil agir como se não se passasse nada quando, por dentro, estou a sentir-me profundamente desconfortável. Posso continuar a conversar, a sorrir ou a fazer aquilo que esperam de mim, enquanto uma parte do meu corpo e da minha mente está em alerta.

Mostrar esse lado pode fazer-me sentir diferente ou demasiado exposta.

Hoje, a ansiedade é algo que já aceitei como parte da minha realidade. Isso não significa que seja sempre fácil mostrá-la ou explicar o que estou a sentir. A aceitação não apaga automaticamente o desconforto, mas ajuda-me a não tratar essa parte de mim como se fosse uma falha que tenho obrigatoriamente de esconder.

Foi por isso que compreendi tão bem o medo de Rumi.

Quando acreditamos que temos de parecer sempre fortes, tranquilos ou perfeitos para sermos aceites, começamos a apresentar aos outros apenas uma versão cuidadosamente controlada de quem somos.

E manter essa versão pode tornar-se exaustivo.

Celine: proteger alguém ou ensiná-lo a rejeitar-se?

Não duvido de que Celine goste verdadeiramente de Rumi.

Foi ela quem a criou, treinou e tentou proteger depois da morte da mãe. Muitas das suas decisões parecem nascer do medo daquilo que poderia acontecer se o mundo descobrisse que Rumi era metade demónio.

Mas amar alguém não torna automaticamente todas as nossas escolhas corretas.

Durante toda a vida de Rumi, Celine ensinou-lhe que a sua verdadeira identidade tinha de permanecer escondida. Mesmo que acreditasse estar a protegê-la, transmitiu-lhe também a ideia de que existia alguma coisa de errado nela.

Rumi cresceu sem saber como seria ser amada depois de mostrar as marcas. Conhecia o amor de Celine, mas era um amor acompanhado por silêncio, disfarces e pela promessa de que um dia aquela parte indesejada poderia desaparecer.

E isso não me parece correto.

Proteger uma pessoa do preconceito do mundo é diferente de a ensinar a rejeitar-se antes de o mundo sequer ter a oportunidade de a conhecer.

Celine também carrega os seus próprios medos e a sua própria vergonha. Não a vejo como uma personagem cruel, mas como alguém que deixou o medo decidir durante demasiado tempo. Tentou salvar Rumi escondendo-a e acabou por contribuir para a dor que queria evitar.

Por vezes, uma proteção construída sobre o medo transforma-se numa prisão.

Jinu e o peso de não conseguir perdoar o passado

Jinu também é uma personagem especial.

Quando era humano, fez uma escolha que teve consequências terríveis. Vivia em pobreza e aceitou a promessa de fama e riqueza, mas acabou por deixar a mãe e a irmã para trás. O desespero ajuda-me a compreender o contexto em que tomou essa decisão, mas não apaga o sofrimento provocado.

O mais importante para mim é que Jinu não olha para o passado com indiferença. Ele arrepende-se. Sente culpa e, de alguma forma, procura uma oportunidade para corrigir aquilo que fez.

Gwi-Ma mantém-no preso através dessa culpa. Recorda-lhe constantemente o pior momento da sua vida até Jinu acreditar que já não pode ser nada para além do seu maior erro.

É também por isso que ele reconhece tão depressa a vergonha de Rumi.

Apesar de terem histórias diferentes, ambos vivem aprisionados por algo que acreditam não poder revelar. Rumi teme ser rejeitada pelo que é. Jinu acredita que nunca poderá ser perdoado pelo que fez.

Os dois carregam uma parte de si que associam à possibilidade de perder o amor, o lugar e a esperança.

Rumi teme que a verdade a torne impossível de amar. Jinu acredita que o passado já o tornou impossível de perdoar.

“Free”: quando duas pessoas deixam de fingir

A minha música preferida é “Free” e foi também durante essa música que vivi o momento mais emocionante do filme.

No meio de concertos grandiosos, batalhas e coreografias cheias de energia, esta canção cria um espaço íntimo. Rumi e Jinu deixam, por alguns instantes, de representar os papéis que lhes foram atribuídos.

Ela não precisa de fingir que é completamente humana.

Ele não precisa de fingir que não sente remorsos.

“Free” não me marcou apenas pelo possível sentimento romântico entre os dois. Marcou-me porque representa o alívio de finalmente existir diante de alguém sem esconder tudo aquilo que nos assusta.

Rumi começa a recuperar a voz quando consegue falar sobre a sua vergonha. Não é Jinu que a “conserta”. É a possibilidade de ser vista por inteiro sem ser imediatamente rejeitada que lhe devolve espaço para respirar.

Da mesma forma, Rumi permite que Jinu imagine, ainda que por pouco tempo, que talvez ele possa ser mais do que os erros do passado.

A música mostra aquilo que ambos desejam: não uma vida perfeita, mas uma vida em que já não precisam de fugir de si próprios.

Talvez seja por isso que a cena é tão bonita. No meio de duas identidades incompatíveis, nasce um momento de compreensão verdadeira.

O segredo que quebrou a confiança

Quando Mira e Zoey descobrem a verdade sobre Rumi, ficam em choque.

Acredito que a dor delas não nasce apenas do facto de Rumi ser metade demónio. Nasce principalmente de perceberem que a amiga escondeu uma parte tão importante da sua vida durante todo aquele tempo.

Sentem-se traídas.

Para mim, esta parte da história fala sobretudo sobre confiança. Acredito que, se Rumi lhes tivesse contado tudo desde o início, o resultado teria sido diferente. Mira e Zoey teriam tido tempo para ouvir, compreender e conhecer aquela parte dela sem serem manipuladas pelos acontecimentos à sua volta.

Acredito mesmo que a teriam aceitado tal como ela é.

Ao mesmo tempo, também não consigo culpar Rumi por ter escondido a verdade. Desde criança, aprendeu que revelar as marcas significava colocar tudo em risco. Nunca teve a oportunidade de descobrir, de uma forma segura, se as pessoas poderiam ficar.

As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo: Rumi escondeu o segredo para se proteger e Mira e Zoey tinham motivos para se sentirem magoadas.

Por vezes, um segredo protege-nos durante algum tempo, mas também cria distância entre nós e as pessoas que mais queremos manter por perto.

O sacrifício de Jinu: culpa, amor e redenção

Não esperava que Jinu desaparecesse.

O seu sacrifício emocionou-me porque consegui sentir que havia culpa naquela decisão, mas também amor. No momento decisivo, Jinu escolhe proteger Rumi, mesmo sabendo que isso lhe custará tudo.

Esse gesto não apaga os erros que cometeu. A redenção não funciona como uma borracha capaz de eliminar o passado.

Mas existe uma diferença entre sentir arrependimento e fazer finalmente uma escolha diferente.

Quando era humano, Jinu deixou para trás as pessoas que amava para salvar a si próprio. No final, faz o contrário: entrega-se para salvar alguém.

Não consegue regressar ao passado nem reparar diretamente o que aconteceu à sua família, mas consegue interromper o padrão que o perseguiu durante séculos. Perante uma nova escolha, deixa de agir por medo e coloca outra pessoa à frente de si.

Para mim, é aí que se encontra a sua redenção.

O seu último gesto nasce do desejo de corrigir os próprios erros, mas também do sentimento que desenvolveu por Rumi. Talvez amor. Talvez uma ligação tão profunda que já não precisa de ser explicada por completo.

O certo é que, naquele momento, Jinu deixa de ser controlado pela vergonha.

E ajuda Rumi a recuperar a força para lutar sem voltar a esconder quem é.

E depois existe o Derpy

É impossível falar das minhas personagens preferidas sem mencionar o Derpy.

Porque o Derpy é SUPER FOFINHO — e isso já seria motivo suficiente para o amar. 🐯💙

Mas, por baixo de toda a sua confusão adorável, existe também algo que combina perfeitamente com a mensagem do filme. Derpy aproxima-se de Rumi sem exigir explicações. Não a julga pelas marcas, não lhe pede que escolha entre o lado humano e o lado demoníaco e não parece vê-la como uma ameaça.

Simplesmente gosta dela.

Numa história em que tantas personagens vivem com medo de serem rejeitadas, Derpy representa uma forma muito simples e bonita de aceitação.

E continua a ser um tigre enorme que age como um gato doméstico, por isso era impossível não me conquistar.

A verdadeira força não nasce da perfeição

Durante grande parte do filme, Rumi acredita que precisa de construir a Honmoon perfeita, esconder as marcas e eliminar o seu lado demoníaco.

Mas a verdadeira mudança só acontece quando deixa de tentar tornar-se numa versão “aceitável” de si própria.

Rumi não recupera realmente a voz quando as marcas desaparecem. Recupera-a quando deixa de acreditar que precisa de as fazer desaparecer para merecer cantar, ser amada ou pertencer ao grupo.

Também a ligação entre Rumi, Mira e Zoey não é reconstruída através da perfeição. É reconstruída quando a verdade fica finalmente visível e elas escolhem continuar juntas.

A força das HUNTR/X nunca esteve apenas nas armas, nas vozes individuais ou na imagem impecável que apresentavam aos fãs. Estava na confiança entre as três e na capacidade de transformarem as diferenças numa voz partilhada.

A mensagem que retirei de KPop Demon Hunters foi precisamente esta: lutar contra os nossos medos, não desistir e aceitar quem somos.

Todas as pessoas têm alguma coisa que se sentem menos confortáveis em mostrar. Pode ser uma insegurança, uma condição de saúde mental, uma cicatriz, um erro, uma fragilidade ou uma parte da personalidade que aprenderam a esconder.

Para nós, essa parte pode parecer horrível. Podemos ter a certeza de que toda a gente a verá da mesma forma.

Mas talvez os outros não a considerem horrível.

Talvez aquilo que tentamos esconder seja apenas uma das muitas coisas que nos distinguem e nos tornam especiais.

Aceitarmo-nos não significa gostar de todos os sentimentos que temos, desculpar todos os nossos erros ou deixar de querer crescer. Significa compreender que não precisamos de rejeitar partes inteiras de nós para merecermos amor, amizade e respeito.

Tenho de me amar por inteiro e aceitar todos os pedacinhos de mim — até aqueles que ainda estou a aprender a mostrar.

No fim, talvez a nossa voz nunca tenha desaparecido verdadeiramente.

Talvez estivesse apenas cansada de tentar cantar uma versão incompleta de quem somos.

A vergonha tenta convencer-nos de que só seremos aceites se escondermos a parte mais frágil de nós. Mas talvez seja precisamente quando deixamos de fugir dessa parte que a nossa voz regressa.

E tu?

  • Existe alguma parte de ti que escondes por medo de que as pessoas se afastem?
  • Esse medo nasceu da forma como os outros realmente te trataram ou daquilo que aprendeste a acreditar sobre ti?
  • Como seria a tua vida se deixasses de sentir que precisas de ser uma pessoa perfeita para merecer ser aceite?

Se te sentires confortável, conta-me nos comentários. Quero muito conhecer a tua reflexão. 💙