Urusei Yatsura: quando o amor se esconde entre a perseguição e a fuga

Uma reflexão sobre Lum, Ataru e os sentimentos que só conseguem aparecer quando o orgulho deixa de os proteger.

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Urusei Yatsura: quando o amor se esconde entre a perseguição e a fuga

Uma reflexão sobre Lum, Ataru e os sentimentos que só conseguem aparecer quando o orgulho deixa de os proteger.

⚠ Spoilers: este artigo contém spoilers sobre vários episódios do anime original de Urusei Yatsura, incluindo o episódio 44, “After You’ve Gone”.

Há animes de que me lembro pela história.

E há outros que ficaram ligados a uma parte inteira da minha vida.

Eu tinha cerca de 15 ou 16 anos quando via Urusei Yatsura na televisão. Depois de chegar da escola, esperava pelos episódios que davam diariamente e regressava àquele mundo onde uma discussão podia provocar uma tempestade, uma tentativa de encontro podia terminar numa perseguição pela cidade e uma rapariga vinda do espaço conseguia amar o rapaz mais impossível da Terra como se desistir nunca tivesse sido uma opção.

Ria-me muito.

Mas também me emocionava.

Por baixo da comédia absurda, havia uma pergunta que me fazia continuar a esperar pelo episódio seguinte: será que Lum e Ataru alguma vez se vão entender de verdade?

Sempre fui uma grande fã dos dois. Lum tornou-se a minha personagem favorita porque é alegre, tem bom coração e não sabe desistir da pessoa que ama. Ataru irritava-me muitas vezes, mas eu nunca consegui vê-lo apenas como um rapaz mulherengo e irresponsável. Para mim, ele é também alguém emocionalmente imaturo, orgulhoso e incapaz de admitir aquilo que sente enquanto ainda consegue esconder-se atrás de uma piada.

É precisamente essa contradição que torna a relação tão difícil de abandonar.

Lum passa grande parte da história a tentar ser escolhida por alguém que insiste em fugir.

Ataru passa grande parte da história a fugir de alguém cuja ausência acaba por revelar que já se tornou indispensável.

Lum persegue Ataru porque precisa de sentir que foi escolhida. Ataru foge de Lum porque admitir que a escolheu obrigá-lo-ia a mostrar aquilo que sente.

Tudo começa com uma perseguição que nunca chega verdadeiramente ao fim

O anime original de Urusei Yatsura, exibido entre 1981 e 1986 e baseado no manga de Rumiko Takahashi, transforma uma invasão extraterrestre numa das histórias românticas mais caóticas que conheço.

Ataru Moroboshi é escolhido ao acaso para defender a Terra num jogo de apanhada contra Lum, uma princesa alienígena capaz de voar. Se conseguir agarrar-lhe os chifres, o planeta será salvo.

Shinobu promete casar com ele se vencer. Quando Ataru finalmente consegue apanhar Lum, grita de felicidade porque acredita que poderá casar-se com Shinobu. Lum interpreta aquelas palavras como um pedido dirigido a si e aceita tornar-se sua mulher.

A relação começa, portanto, sem uma declaração de amor partilhada.

Lum acredita que foi escolhida.

Ataru sabe que estava a falar de outra pessoa.

Ela aproxima-se como alguém que já encontrou o seu lugar. Ele reage como alguém que sente que a própria vida foi invadida juntamente com o planeta.

O primeiro jogo de apanhada termina, mas a perseguição nunca acaba verdadeiramente. Apenas muda de forma.

Lum deixa de correr para proteger os chifres e passa a correr atrás do reconhecimento de Ataru. Ele deixa de tentar salvar a Terra e passa a defender uma ideia de liberdade que, para si, parece depender de nunca admitir que pertence emocionalmente a alguém.

É curioso pensar que Lum nem sequer tinha sido imaginada inicialmente como a heroína principal. Rumiko Takahashi contou que ela estava prevista apenas para o primeiro capítulo e que Shinobu ocupava, no início, o lugar de heroína. No entanto, Lum foi regressando, ganhou espaço e tornou-se naturalmente o centro da história. A própria autora explicou mais tarde que a série acabou por se concentrar sobretudo na perseguição entre Lum e Ataru.

Talvez Lum tenha conquistado a narrativa da mesma maneira que conquistou Tomobiki: aparecendo, insistindo e tornando impossível imaginar aquele mundo sem ela.

Tomobiki transforma qualquer sentimento numa explosão

Falar apenas de Lum e Ataru nunca chega para explicar tudo aquilo que adoro em Urusei Yatsura.

Tomobiki parece viver segundo uma regra muito simples: nenhuma situação pode permanecer normal durante mais do que alguns minutos.

Uma aula pode ser interrompida por alienígenas. Um encontro pode tornar-se uma guerra. Uma superstição pode alterar a realidade. Uma discussão doméstica pode envolver a escola inteira, o exército privado de Mendou, uma criatura mitológica e Cherry a anunciar uma desgraça que provavelmente ajudará a provocar.

Shinobu, Mendou, Ten, Sakura, Cherry, Megane e os restantes admiradores de Lum, Ran, Benten, Oyuki e tantas outras personagens não funcionam apenas como figuras secundárias à volta do casal. Cada uma acrescenta uma nova força ao caos.

Mendou oferece a Ataru um rival que parece ter tudo aquilo que ele não tem, embora esconda os seus próprios absurdos. Shinobu carrega a memória da vida que Ataru julgava querer antes da chegada de Lum. Ten observa a relação com a falta de paciência de quem não compreende como Lum pode amar aquele homem. Os admiradores de Lum transformam cada falha de Ataru num julgamento público. As amigas extraterrestres de Lum alargam o mundo e recordam que ela tinha uma vida, uma história e relações antes de chegar à Terra.

O resultado é uma comédia onde todos podem ser vítimas e responsáveis pelo desastre seguinte.

Mas o absurdo não elimina os sentimentos.

Na verdade, faz com que os momentos sinceros se tornem ainda mais visíveis.

Quando uma série vive entre choques elétricos, perseguições, gritos e mal-entendidos, basta uma personagem ficar em silêncio para tudo mudar. Um olhar que dura mais alguns segundos parece uma confissão. Uma mão que não é afastada consegue dizer aquilo que dezenas de discussões evitaram.

É por isso que Urusei Yatsura consegue fazer-me rir durante quase todo um episódio e emocionar-me de repente, sem deixar de parecer a mesma história.

Em Tomobiki, o amor raramente consegue terminar uma discussão. Mas, por vezes, encontra alguns segundos de silêncio onde já não pode ser confundido com uma piada.

Lum não sabe amar pela metade

Lum entra na vida de Ataru como uma invasora, mas não permanece nela apenas por causa do mal-entendido inicial.

Com o tempo, o amor dela torna-se uma escolha repetida.

Ela escolhe ficar na Terra. Escolhe integrar-se na escola, na casa e na rotina dele. Escolhe chamar-lhe “Darling” mesmo quando Ataru parece fazer tudo para provar que não merece aquela ternura. Preocupa-se com ele, tenta protegê-lo, prepara-lhe coisas, imagina um futuro em conjunto e regressa depois de discussões que teriam feito muitas pessoas desistir.

Essa persistência é uma das razões pelas quais sempre a achei incrível.

Lum não é uma personagem passiva à espera de que Ataru decida o destino dela. Voa, luta, reage, exige espaço e faz-se ouvir. O amor não a transforma numa sombra do protagonista. Pelo contrário, é a força dela que transforma a vida de Ataru e o próprio centro da série.

Também não preciso de fingir que Lum não tem defeitos para gostar dela.

Os ciúmes, os choques elétricos e a vontade de controlar o comportamento de Ataru fazem parte da exageração cómica, mas continuam a revelar um lado possessivo. Ela pode agir por impulso e responder à insegurança com força em vez de palavras.

O bom coração de Lum não desaparece por causa disso. Apenas deixa de ser uma personagem perfeita e transforma-se numa personagem emocionalmente mais interessante.

Vejo nela alegria e amor, mas também medo.

Lum sabe dizer que ama Ataru. O que não sabe é como viver com a possibilidade de nunca ouvir dele uma resposta igualmente clara.

Ela recebe a presença dele, mas não recebe segurança.

Recebe o papel de “mulher” que assumiu desde o início, mas não o reconhecimento de que foi escolhida conscientemente.

E existe uma diferença enorme entre ficar ao lado de alguém e sentir que essa pessoa também decidiu permanecer.

Os ciúmes escondem o medo de nunca ser escolhida

Os ciúmes de Lum não nascem apenas da sua imaginação.

Ataru procura outras raparigas, faz declarações exageradas, persegue qualquer mulher que considere bonita e parece especialmente determinado a fazê-lo quando Lum está por perto. Ela não está a reagir a uma ameaça invisível. Está a responder a um comportamento que se repete diante dela.

Contudo, por baixo da explosão cómica, vejo uma ferida mais silenciosa.

Lum pode ser admirada por quase todos os rapazes de Tomobiki. Pode voar, controlar eletricidade e vir de um mundo muito maior do que aquele pequeno bairro. Mesmo assim, nenhuma dessas coisas lhe oferece aquilo que procura.

Ela não quer ser escolhida por toda a gente.

Quer ser escolhida por Ataru.

Quanto mais ele foge, mais ela tenta aproximá-lo. Quanto mais ele olha para outras raparigas, mais Lum precisa de reafirmar que é a mulher dele. Quanto menos segurança recebe, mais força usa para tentar impedir que a relação lhe escape.

Isso não significa que os ciúmes sejam sempre justos nem que amar alguém dê o direito de o controlar. Significa apenas que consigo reconhecer o medo escondido dentro daquele comportamento.

Lum começa a história convencida de que um grito mal interpretado foi um pedido de casamento. Durante o resto da série, parece tentar transformar esse acaso numa escolha real.

Por isso, a luta dela não é apenas para manter Ataru por perto.

É para conseguir que ele reconheça o amor que ela acredita existir entre os dois.

Ser chamada de mulher de Ataru não chega a Lum. O que ela procura é o momento em que ele deixe de tratar a relação como um acidente e admita que também a escolheu.

Ataru já fugia antes de saber que estava apaixonado

Eu acredito que Ataru acaba por amar Lum.

Não acredito, porém, que todo o seu comportamento com outras raparigas exista apenas para a provocar.

Ele já era mulherengo antes de a conhecer. Rumiko Takahashi explicou que chegou a refazer várias vezes os esboços iniciais até conseguir dar-lhe precisamente essa característica. A procura constante por mulheres não nasce, portanto, como resposta a Lum. Faz parte da identidade que Ataru apresenta ao mundo desde o princípio.

Com o tempo, porém, essa atitude parece ganhar outra função.

Continuar a perseguir todas as raparigas permite-lhe fingir que nada mudou. Também lhe permite irritar Lum, recuperar o controlo depois de se sentir encurralado e evitar a vulnerabilidade de admitir que uma pessoa passou a ser diferente de todas as outras.

Ataru sabe correr atrás do desejo.

O que não sabe é permanecer diante do amor.

Uma conquista momentânea não lhe exige intimidade, responsabilidade ou mudança. Admitir que ama Lum obrigá-lo-ia a reconhecer que precisa dela, que pode ser magoado pela sua ausência e que a liberdade que defende com tanta insistência já não corresponde completamente àquilo que sente.

Por isso, ele transforma quase tudo numa provocação.

Quando Lum se aproxima, Ataru recua. Quando ela pede uma confirmação, ele responde com orgulho. Quando um momento de ternura ameaça revelar demasiado, surge uma piada, uma nova rapariga ou uma discussão capaz de repor a distância habitual.

Isto não desculpa a forma como a trata.

Amar alguém não torna automaticamente uma pessoa madura. Também não apaga o egoísmo, não repara palavras cruéis e não transforma a falta de respeito numa demonstração romântica secreta.

Ataru pode amar Lum e continuar a comportar-se mal com ela.

As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo.

É essa tensão que me parece mais honesta do que uma leitura onde ele é apenas insensível ou, no extremo oposto, onde todas as suas falhas passam a ser justificadas pelo sentimento que esconde.

A própria Rumiko Takahashi reconheceu a necessidade de mostrar esse outro lado. Numa entrevista sobre a evolução da série, explicou que era importante incluir, de vez em quando, histórias mais ternas; se Ataru estivesse sempre a fugir de Lum, quem lia deixaria de perceber que ele realmente gostava dela.

O amor de Ataru não aparece como uma mudança completa de personalidade.

Aparece nas exceções que a personalidade dele já não consegue esconder.

Ataru não se torna uma pessoa diferente quando ama Lum. É por continuar quase igual que os raros momentos em que baixa as defesas revelam tanto.

Os sentimentos aparecem nos intervalos da comédia

Urusei Yatsura não constrói a relação através de um progresso romântico contínuo.

Constrói-a em pequenas interrupções.

No episódio 10, “Pitter-Patter Christmas Eve”, os admiradores de Lum preparam uma falsa pretendente para humilhar Ataru e afastá-lo dela. A situação começa como mais uma armadilha absurda, mas termina com Lum a impedir que ele seja ridicularizado e com os dois a regressarem juntos.

O episódio não transforma Ataru num namorado exemplar. No dia seguinte, o caos pode recomeçar como se nada tivesse acontecido.

Mesmo assim, algo foi revelado.

Entre os dois existe uma proximidade que já não depende apenas do mal-entendido inicial.

Mais tarde, quando Lum perde a memória depois de uma discussão e Mendou tenta convencê-la de que é sua noiva, Ataru participa na tentativa de a recuperar. Perante a possibilidade de ela deixar verdadeiramente de o reconhecer, a indiferença habitual torna-se muito mais difícil de sustentar.

Estes momentos não resolvem a relação.

Funcionam como brechas.

Durante alguns instantes, o comportamento de Ataru aproxima-se daquilo que ele nunca diria diretamente. Depois, o orgulho fecha novamente a abertura e a comédia devolve as personagens à perseguição habitual.

Pode parecer frustrante, sobretudo para quem espera que os dois finalmente se entendam de uma vez. Eu própria via os episódios com essa esperança.

Mas também é essa espera que dá tanta força às exceções.

Se Ataru declarasse constantemente aquilo que sente, o gesto perderia o significado. Como ele passa quase todo o tempo a negar, cada instante em que escolhe Lum parece arrancado a uma parte de si que luta para não ser vista.

Quando Lum desaparece, Ataru deixa de conseguir fingir

O episódio que melhor representa tudo isto é, para mim, o episódio 44, “After You’ve Gone”.

Era precisamente o episódio de que me lembrava quando pensei na relação dos dois.

Durante uma festa organizada em homenagem a Lum, Ataru queixa-se de tudo aquilo que sofreu desde a chegada dela. Diz que a presença de Lum limita a sua liberdade e impede que se aproxime de outras raparigas. Quando ela lhe pergunta se a incomoda assim tanto, ele não recua.

Lum aceita as palavras e vai embora.

Na verdade, precisa apenas de regressar temporariamente para tratar da renovação do passaporte que lhe permite permanecer na Terra. Ataru não sabe disso. Depois da discussão, interpreta o desaparecimento como uma partida definitiva e acredita que foi finalmente abandonado.

Ao início, ainda tenta proteger o orgulho.

A casa está mais silenciosa. Os pais apreciam a paz inesperada. A vida sem choques elétricos e discussões deveria corresponder exatamente à liberdade que ele dizia querer.

Mas Ataru não sente alívio.

Procura Lum no armário, como se ela pudesse estar escondida. Repara na pequena boneca que ela coseu e deixou no quarto. Sai à procura dela, mas interrompe as perguntas antes de admitir aos outros que está preocupado.

No dia seguinte, leva a boneca consigo para a escola.

Este pequeno gesto diz muito porque não serve para impressionar ninguém. Ataru não a mostra como prova de amor. Pelo contrário, tenta protegê-la quando os colegas lha tiram. A boneca é a única presença de Lum que ainda consegue manter perto do corpo enquanto continua a negar que sente a falta dela.

Até a possibilidade de retomar a relação com Shinobu perde o sentido.

Ataru tenta agir como se tudo pudesse voltar ao que era antes da chegada de Lum, mas já não existe um “antes” para onde regressar. A vida antiga que ele julgava querer tornou-se incompatível com a pessoa em que se transformou depois de ela entrar naquele quarto, naquela escola e naquela rotina.

É quando fica sozinho que as defesas caem por completo.

Ataru vagueia pela cidade, tropeça e acaba a chorar enquanto chama por Lum.

Não está a falar para ela.

Não sabe que a boneca contém um pequeno transmissor e que Lum consegue ouvi-lo. Não existe público para conquistar, discussão para ganhar ou ciúme para provocar. Pela primeira vez, a dor aparece sem que ele tenha tempo de a converter em comédia.

Lum escuta o nome dela na voz de alguém que nunca consegue pronunciá-lo como uma confissão.

Quando regressa, Ataru volta imediatamente a fingir que não sentiu a sua falta. A série não lhe permite permanecer vulnerável durante muito tempo. No entanto, quando Lum desvia a atenção, ele deixa escapar um suspiro de alívio.

O orgulho recupera as palavras.

O corpo diz a verdade.

As notas da edição da AnimEigo registam que, no final da transmissão original, os espectadores elegeram este como o episódio favorito da série. Não me surpreende.

Depois de tanto ruído, o episódio oferece a confirmação emocional que Ataru quase nunca consegue dar. Ele não ama Lum apenas porque ela desaparece. A ausência limita-se a retirar tudo aquilo que lhe permitia ignorar um sentimento que já estava presente.

Ataru só consegue chamar por Lum quando acredita que ela já não está lá para ouvir. É nesse instante que a fuga termina e o amor deixa de ter onde se esconder.

Perseguir e fugir são duas formas diferentes de medo

Lum e Ataru parecem ocupar extremos opostos.

Ela mostra demasiado.

Ele esconde quase tudo.

Lum tem medo de não ser escolhida e procura confirmação através da proximidade, dos ciúmes e da insistência. Ataru tem medo de admitir que precisa de alguém e procura proteção através da distância, da provocação e da recusa.

Quanto mais ela persegue, mais ele sente necessidade de fugir.

Quanto mais ele foge, mais ela sente necessidade de perseguir.

Nenhum dos dois sabe interromper o ciclo porque cada defesa ativa precisamente o medo do outro.

Isto não transforma a relação num exemplo perfeito de amor. Longe disso.

Lum precisa de aprender que não pode obrigar alguém a oferecer segurança através da força. Ataru precisa de compreender que esconder sentimentos não impede que as suas ações magoem quem está ao lado dele. A presença do amor não significa que exista automaticamente uma forma saudável de o viver.

Mesmo assim, é possível reconhecer o sentimento dentro da confusão.

Lum não desiste porque, para ela, aquilo que existe entre os dois é real. Ataru não consegue deixá-la partir porque, apesar de tudo o que diz, a vida com Lum já se tornou a sua normalidade emocional.

O problema não é a ausência de amor.

É a incapacidade de o transformar numa linguagem que ambos consigam receber sem medo.

Lum fala através da insistência.

Ataru responde através das exceções.

E quem acompanha a história aprende a procurar a verdade não nas discussões que se repetem, mas nos momentos em que um deles acredita que pode perder o outro.

Eles não passam a vida a fugir do amor porque não sentem. Fogem porque sentir exige uma coragem emocional que nenhum dos dois domina da mesma maneira.

A música, as cores e o caos também fazem parte da memória

A minha ligação a Urusei Yatsura não vive apenas na análise da relação entre Lum e Ataru.

Vive também na forma como o anime se sente.

Nas cores intensas. Na animação desenhada à mão. Nas ruas de Tomobiki. Nas roupas, nos penteados, nas naves espaciais e na mistura constante entre o quotidiano e o impossível. Nas músicas que conseguem ser alegres, românticas e um pouco melancólicas dentro da mesma série.

“Lum no Love Song”, a primeira abertura, apresenta imediatamente um amor cheio de energia, ciúme e insistência. A canção parece transportar a mesma contradição de Lum: a alegria de amar alguém e a frustração de nunca conseguir impedir que os olhos dele procurem outra pessoa.

As músicas de encerramento também tinham espaço para uma emoção mais delicada, como se depois de todo o barulho do episódio existisse sempre uma pequena janela onde a saudade podia entrar.

Essa identidade não era apenas decoração.

Era parte da experiência de chegar da escola e encontrar novamente aquelas personagens.

Quando penso no anime, não recordo apenas acontecimentos isolados. Recordo a expectativa de ver mais um episódio. Recordo o riso. Recordo a ansiedade de esperar que Lum e Ataru se aproximassem finalmente. Recordo a sensação de acompanhar um grupo de personagens tão caótico que, apesar de tudo, parecia familiar.

A nostalgia não significa que eu tenha esquecido os defeitos da história.

Significa que a história ficou ligada à pessoa que eu era quando a descobri.

Voltar mentalmente a Tomobiki é também regressar, por alguns instantes, à rapariga de 15 ou 16 anos que chegava da escola, ligava a televisão e ainda acreditava que talvez aquele fosse o episódio em que Ataru deixaria de fugir.

Algumas histórias ficam comigo não apenas por aquilo que contam, mas porque guardam a memória de quem eu era quando aprendi a amá-las.

O amor nunca se torna simples, mas torna-se impossível de negar

Urusei Yatsura não me marcou por apresentar um romance tranquilo.

Marcou-me porque encontra sentimentos verdadeiros dentro de duas pessoas que quase nunca sabem lidar com eles.

Lum ama de forma visível, insistente e imperfeita. Tem bom coração, uma alegria contagiante e uma força que não depende de ser correspondida a cada momento. Mas também carrega o medo de nunca ser verdadeiramente escolhida pelo homem a quem entregou tanta certeza.

Ataru é mulherengo, egoísta e emocionalmente imaturo. Magoa Lum, provoca-a e usa a comédia para escapar às consequências daquilo que faz. No entanto, os momentos em que pensa que pode perdê-la revelam uma ligação que já não consegue ser explicada apenas por hábito ou conveniência.

Eu acredito que ele a ama.

Não porque deixe de olhar para outras raparigas.

Não porque aprenda subitamente a dizer tudo aquilo que Lum precisa de ouvir.

E não porque o amor apague os seus defeitos.

Acredito porque, quando Lum desaparece, desaparece também a versão do mundo onde Ataru conseguia continuar a fingir que ela não era essencial.

Durante quase toda a série, Lum corre atrás dele e Ataru corre para longe dela.

Mas os instantes mais importantes mostram outra coisa: por maior que seja a distância que ele tenta criar, já não sabe regressar a uma vida onde ela não esteja.

Talvez seja por isso que continuo a torcer pelos dois, mesmo reconhecendo tudo aquilo que precisariam de aprender.

Não espero deles uma história perfeita.

Vejo uma história sobre o desejo de ser escolhida, o medo de precisar de alguém e a dificuldade de dizer “amo-te” quando admitir o sentimento parece mais assustador do que continuar a fugir.

Lum passa a história a tentar alcançar Ataru. O que o episódio 44 revela é que, emocionalmente, ela já o tinha alcançado muito antes de ele conseguir admitir.

E tu? Acreditas que Ataru ama Lum, apesar da forma como se comporta?

Qual foi o episódio em que sentiste, pela primeira vez, que ela já era indispensável para ele?

E há algum anime que te faça regressar imediatamente à fase da vida em que o descobriste?

Se Urusei Yatsura também ficou contigo, conta-me nos comentários qual é a tua personagem favorita e que momento entre Lum e Ataru nunca esqueceste.